May 20, 2008

Meirelles escreve sobre seu encontro com Saramago

Mate a saudade do blog
do Fernando Meirelles
com esse texto especial
que ele postou no site de sua produtora
O2 Filmes (http://www.o2filmes.com.br/site.html
)
e eu tomei a liberdade de copiar aqui.
Meirelles narra seu encontro
com o escritor José Saramago
na exibição de Blindness.

Leia abaixo as impressões do diretor:

"Aí vai um breve relatório da minha visita a Lisboa.Acabo de deixar o José Saramago com sua mulher Pilar no Ministério da Cultura onde está sendo exibida uma retrospectiva de sua obra e vida. Houve uma pequena coletiva de imprensa esta manhã depois de visitarmos juntos a exposição.

Meu filminho de menos de 2 horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira. Ele assistiu o Ensaio Sobre a Cegueira na noite anterior, no sábado. Infelizmente o cinema que nos foi reservado não tinha projetor de vídeo então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. (A imagem estava por demais escura e não havia sistema de som 5.1 o que significa um som péssimo pois não levamos uma mixagem em estéreo.)

Quando vi um teste da projeção pensei em desistir de mostrar o filme mas o escritor já estava na sala de espera e em respeito ao compromisso achei melhor ir em frente. Sentei-me ao lado dele e sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou uma música mal soava. Ele assistiu mudo e sem reação alguma. Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher ,Pilar, se debruçou sobre ele e me agradeceu emocionada.Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para ele que fitava a tela sem reação. Toquei seu braço e disse que ele não precisava falar nada naquele momento mas ele virou-se para mim, os olhos brilhantes e com uma voz embargada me disse:

"Fernando, depois de acabar de ver esse filme eu me sinto tão feliz como quando acabei de escrever OEnsaio Sobre a Cegueira". Apenas agradeci e ficamos ali quietos.Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio.

Ele passou a mão nos olhos disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Num impulso beijei sua testa.Depois de uma semana que me pareceu uma montanha russa de emoções não esperava que uma "onda" maior ainda estivesse por vir. Ainda no cinema ele fez alguns comentários específicos sobre pontos que lhe chamaram atenção no filme e durante o jantar que se seguiu falamos mais sobre algumas passagens do filme e do livro. Foi honesto ao dizer que o filme não era perfeito, mas acrescentouque nunca assistiu um filme perfeito. Disse que gostaria que o Cão das Lágrimas tivesse uma aparência menos "doce".

Eu disse-lhe que ainda estava pensando em cortar a narração do Homem da Venda Preta, e perguntei sua opinião.
"Deixe assim. Não mexa em nada". Me disse. E acrescentou: "Eu tinha medo, sabe-se lá por qual razão, que vocês fizessem um filme didático e que as narrações pudessem querer explicar a história, mas isso não acontece, Está muito bom como está. Não está sobrando nada no filme e as passagens que vocês tiraram não estão fazendo falta. Deixe o filme como está.” Na coletiva de hoje ele repetiu que estava feliz com o filme, que não o considera um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente. Gostou da experiência de ver algo que conhecia mas que ao mesmo tempo não conhecia.

Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha de São Paulo, ele imediatamente se lembrou e contou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança. Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto o velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com eles e reclama dasituação: Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado? Então os dois montam no burro mas alguémacha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno. Finalmente resolvem ambos carregar o burro nas costas mas um outro passante diz que eles são muito estúpidos por carregar o animal. Finalmente o velho decide voltar a primeira situação e parar de dar importância ascríticas.
"É isso que faço sempre. Acrescentou. Nunca polemizei com críticos”, disse.

E sobre as críticas ainda comentou que eles são apenas pessoas que tem um espaço num jornal mas que esse fato não quer dizer necessariamente que sejam mais sensíveis do que qualquer outra pessoa que veja uma obra e tem opiniões, mas não um espaço para expressá-la.
Estou aterrissando em Paris onde fico com a família por duas semanas.A aeromoça manda desligar o computador."

6 comments:

h. Cassiano Riva said...

adorei o seu trabalho todo... eu gostaria que Blindness tivesse sido ovacionado. Não importa tanto. Se Saramago gostou (e em um gosto refinado) é porque a obra é boa. Para nós, resta apenas esperar a estréia... longe longe não? Quanto a Cannes, acho que será atriz (de Leonera), Filme ou diretor (documentário de animação sobre a guerra no Líbano), Linha de passe deve levar algo(adoram Walter Salles aqui). Ator vai para o americano (esqueci o nome agora...). É isso que acho.

Iza said...

Cassiano
Tb acho que se Saramago gostou é o que interessa (gosto refinando)

Manda notícias aí da França.
Obrigada
Um abraço

h. Cassiano Riva said...

Então Iza... veja esse vídeo gravado após a exibição do filme ao Saramago... ele se emociona...

http://br.youtube.com/watch?v=Y1hzDzAvJOY

h. Cassiano Riva said...

Esqueci...

acho que entregam a palma às 13h30 daqui... aí são 5 horas a menos...

deve sair em todos os sites... mas eu te aviso...

Iza said...

Nossa Cassiano valeu a dica...
Obrigada mesmo
Ficamos em contato
Um abraço

Paola said...

Acho que o maior prêmio que o filme podia receber, recebeu!
Não é uma história de fácil digestão.

Fico emocionada de ler o texto, ver o vídeo, acompanhar o blogg.

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